IA, dados e industrialização: o novo canteiro de obras na Engenharia 4.0
A programação de abril do Crea-SP Capacita recebeu, no dia
16, na Sede Angélica do Conselho, a engenheira civil Jéssica Dantas para a
palestra “Inovação na Engenharia: tendências globais e aplicação prática”.
Mestre pelo ConstruInova e diretora do Instituto Brasileiro do Concreto
(Ibracon), ela compartilhou sua experiência — que inclui a atuação como
ex-coordenadora da Cyrela — para discutir o papel do engenheiro como agente de
transformação na construção civil.
O evento focou em como traduzir tecnologias internacionais
para a realidade brasileira, abordando desde a gestão de resíduos até a
construção de arranha-céus com mais de 200 metros. “A forma como construímos
hoje não é escalável e nem sustentável; o setor emite 40% do carbono total no
mundo”, alertou a palestrante.
Para ela, a inovação no canteiro de obras ainda esbarra em
barreiras culturais e operacionais que exigem estratégia e uso consistente de
dados para serem superadas. Nesse cenário, a modernização do setor passa pela
digitalização e pela leitura do contexto econômico. “É muito complicado colocar
em prática uma inovação na área construtiva, pois ela depende do momento de
mercado. Precisamos avançar em tecnologias físicas e digitais, e contamos com
as construtechs. Precisamos tratar os dados para gerar eficiência real”,
afirmou, ao defender que a tecnologia deve ser encarada como ferramenta de
precisão — e não apenas como um recurso de modernidade.
Ao analisar o cenário internacional, a palestrante citou
países como Israel, Emirados Árabes e Japão como referências em inovação, mas
destacou que o avanço no Brasil depende da adaptação dessas soluções à
realidade local. Nesse processo, mencionou o uso da metodologia TRL (Technology
Readiness Level) como ferramenta para avaliar o grau de maturidade das
tecnologias. “Participamos dessas missões para buscar inovação, mas ela precisa
ser adaptada ao nosso mercado, considerando também o fator financeiro. Olhando
para o futuro, acredito que a impressão 3D pode ganhar escala no Brasil em
menos de dois anos — desde que atenda às normas e utilize materiais locais”,
afirmou.
Segundo Dantas, exemplos como os painéis moduláveis de
concreto leve, apresentados na feira Big 5 Global, já apontam para essa
transição, marcada por processos mais industrializados e maior agilidade nos
canteiros de obras.
Ao final do encontro, o debate se concentrou nas tecnologias
emergentes, como os gêmeos digitais — que permitem a criação de ambientes de
teste paralelos às operações reais — e a Inteligência Artificial (IA). Já
aplicada pela Associação Brasileira de Patologia das Construções (Alconpat
Brasil), a IA vem sendo utilizada no diagnóstico de patologias, indicando um
avanço concreto no uso dessas ferramentas no setor.
A especialista também buscou reduzir a preocupação dos
profissionais em relação ao impacto dessas tecnologias no mercado de trabalho,
ao destacar o papel da orquestração digital como uma competência central para o
engenheiro. “A IA não veio para tirar empregos, mas para transformar o que
fazemos. Todas as novas tecnologias assustam até virar rotina, por isso a
inovação deve ser pensada ainda na fase de projetos para que o ESG seja
aplicado de fato”, afirmou. Para ela, a capacitação da mão de obra segue como o
elo final — e decisivo — para que essas inovações se consolidem na prática.
Presente no evento, a Eng. Camila Gomes, que soma sete anos de experiência em canteiros de obras e está em transição para o setor de tecnologia, analisou a palestra como um catalisador para suas novas perspectivas. “Trouxe muitos insights e confiança para aplicarmos novas tecnologias na prática. Ver sistemas inovadores demonstrados de forma real nos dá a certeza de que é possível trazer essas soluções para a nossa realidade”, completou. O mesmo sentimento de renovação também foi compartilhado pela Eng. Gabriela Ligabue. Atuante no varejo bancário, ela destacou o caráter inspirador do encontro para suas atividades cotidianas.